Portanto, como se vê nos vários idiomas, terapêutica
implica primeiro, em “parte da medicina” e, em seguida, diz
respeito a tratar “doenças”. Isso quer dizer que, a rigor, a
terapêutica deveria ser exercida na medicina e sempre destinada às
doenças.
Não
se encontra em nenhum dicionário a expressão terapia emancipada de
terapêutica. Assim sendo, há um paradoxo muito grande nas expressões
Terapia Ocupacional, Fisioterapia, mesmo a Psicoterapia e outras
menos acadêmicas. Os dicionários que consultamos não trazem uma
definição dessas “terapias”, assim sendo, procuramos seus
conceitos, como é o caso da Terapia Ocupacional, conceituada pela Universidade
de Lund através de um texto de 263 palavras e em nenhum momento
disse “curar”.
Fisioterapia,
por sua vez, é conceituada com 68 palavras no site Chartered
Society of Physiotherapy. “A fisioterapia é uma profissão
que cuida da saúde maximizando o potencial, a função e o
movimento humanos: usa intervenções físicas para promover, manter
e restaurar o bem estar físico, psicológico e social, fazendo
exame do cliente e das variações no status de sua saúde...”.
Para
o bom andamento da ciência e do conhecimento humano, a terapêutica
não pode ser entendida como as pessoas gostariam, como acreditam
ser, como desejariam que fosse. Isso é de importância capital para
que as pessoas não sejam iludidas, ludibriadas ou, mais grave
ainda, inebriadas pelas fantasias próprias do mundo infantil e que
podem persistir na vida adulta.
Dizemos isso para entender que qualquer atividade que se diz
terapêutica seja, obrigatória e imperiosamente, associada a um
diagnóstico e a um método cientificamente reconhecido eficaz
(cientificamente eficaz é quando obedece a lógica da metodologia
científica, a mesma que criou sua televisão, seu carro, seu
computador, suas roupas, etc).
E o que se quer dizer com a expressão Terapia Alternativa. Como
terapia, por definição, é própria da medicina, terapia
alternativa deveria ser uma terapia não-médica. Quanto a isso não
temos dúvida, embora, por definição essa expressão não devesse
existir.
Mas, deixando de lado essa incongruência lingüística, para que a
terapia seja realmente alternativa ela deveria se ocupar de uma
questão médica através de métodos não médicos. Ora, quanto aos
métodos não-médicos não temos nada a opor. Eles estão aí e
refletem todo o universo da criatividade humana, e nem cabem na
medicina.
Porém, quanto às questões médicas que as terapias alternativas
se ocupam temos muitas dúvidas. Dúvidas em saber se, de fato, se
tratam de questões médicas, ou seja, se são estados claramente
diagnosticados, se estão classificados como doenças. Sendo
doenças são, realmente, objeto da medicina. Não sendo, não são.
Simples. Portanto, não pode existir terapia alternativa para
"curar" mal-olhado, insatisfação com o modo de vida,
aversão ao marido, aborrecimentos com o chefe, inveja de visinhos,
etc porque estas não são questões médicas.
O Profissional Alternativo
Vamos tentar definir aqui o profissional alternativo como
sendo aquele que se auto-atribui a função de também “curar”,
não necessariamente doenças (daí as aspas em ‘curar’),
utilizando métodos diferentes daqueles estabelecidos pela medicina
tradicional (veja nas colunas ao lado, algumas reflexões sobre a
Medicina Tradicional).
O
Banho de Ofurô é um exemplo disso. Chamam-no de terapêutico, porém,
não sabemos exatamente a que doença se destina. Por outro lado, se
considerarmos que o banho de ofurô é relaxante, agradável,
prazeroso, etc, tudo bem e está correto. Mas, se o profissional que
aplica tais banhos começar com indicações para essa ou aquela
doença, a questão é bem outra. Se for assim, então a ciência
que se ocupa dos banhos de ofurô deve, em respeito à racionalidade
humana, divulgar (como a medicina faz) seus métodos de diagnóstico
e a fisiologia da cura através dessas imersões perfumadas.
Esse
exemplo do banho de ofurô é apenas uma pálida idéia das centenas
de investidas fantasiosas que a sociedade faz acerca das terapias.
Para exercer-se a terapêutica é absolutamente obrigatório o diagnóstico,
como vimos acima, não se concebendo aquela sem que este esteja
muito bem estabelecido, ainda como hipótese. Quando alguém diz que
está tratando (fazendo uma terapia), o mínimo que se pode
perguntar é, o que, exatamente, essa pessoa está tratando.
Evidentemente, se alguém estiver usando essas tais
terapias fora da medicina tradicional para tratar uma doença, por
exemplo, uma insuficiência renal aguda, aí sim podemos chamar de
Terapia Alternativa, alternativa ao modelo médico. Porém, se
estiver tratando de desequilíbrio energético, de fraqueza da aura,
de influências espirituais, etc, então não é Terapia
Alternativa, simplesmente porque a medicina tradicional não se
ocupa desses ‘diagnósticos’.
Agora, se o profissional não médico estiver usando
essas tais terapias alternativas para tratar uma insuficiência
renal (ou uma esquizofrenia) como se fosse uma influência
espiritual, aí será crime e não terapia alternativa. Em nossa
opinião, crime hediondo.
O
Termalismo, chamado por alguns de Hidroterapia (competindo com a
hidroterapia da fisioterapia), é outro exemplo. O termalismo é
considerado o tratamento de enfermidades com as águas sulfurosas.
Veja bem: tratamento. Um site
de Poços de Caldas não se constrange em dar as indicações médicas
para o uso de suas águas sulfurosas: reumatismos, fraturas,
paralisias (?), varizes, bronquites, artrite, flebites, neurites,
nevralgias, artrose, doenças de pele (?), doenças alérgicas (?),
gota, artrose, intoxicação medicamentosa.
Ali
não diz que as pessoas não devem abandonar o tratamento médico
que porventura estejam fazendo, mas simplesmente indicam as águas
termais para essa lista bizarra de doenças. Um trecho da página
sobre o Balneário "Dr. Reynaldo de Oliveira Pimenta",
em Pocinhos do Rio Verde, onde “você poderá banhar-se
com águas sulfurosas e curativas”.
A força do profissional alternativo está, geralmente,
no fascínio do discurso. Contrariando a complexidade da ciência médica,
cujo entendimento é bastante trabalhoso para pessoas não versadas
em medicina, são usadas algumas palavras fáceis e abrangentes para
no intuito de convencer com simplicidade. Para eles, de maneira
simplória, todas as doenças são "desequilíbrios", e
qualquer coisa que o profissional alternativo faça será no sentido
de recupera esse "equilíbrio".
Como todos entendem, embora ninguém veja esse “desequilíbrio”, fica fácil trata-lo com as mais estapafúrdias
mandingas e simpatias, tais como irradiações, mãos energéticas,
aromas, luzes, cristais, banhos, etc. E como o ser humano é, por
natureza, extremamente influenciável, as pessoas podem sentir-se
momentaneamente bem com todo esse aparato litúrgico. Até para
provarem a si mesmas que estavam certas em procurar esse tipo de
ajuda.
O profissional alternativo deve ser simples, fácil de
entender e fascinante em suas explicações. Veja, por exemplo, o
que diz uma página
da internet sobre a cromoterapia. “A cromoterapia é um
tratamento com aplicação de banhos de luz colorida com lâmpadas.
Isto provoca uma energização de todo o sistema celular e conseqüentemente
uma autocura em todos os níveis do corpo humano: Clinicamente,
Hormonalmente, Quimicamente, Sistema Nervoso, Emocional e
Espiritual. O nosso corpo necessita da vibração de certas cores,
que dependem da atividade energética dos chakras”. Dispenso
comentários.
De
fato, até onde a ciência pode explicar, o maior aliado dos
profissionais alternativos é a fé do paciente. A fé sim, como
crença irremovível e inabalável, exerce grande influência no
estado geral das pessoas e, inclusive, opera grandes alterações no
eixo hipotálamo-hipófise-“outras glândulas” (principalmente tireóide
e suprarrenais),
com conseqüentes alterações orgânicas.
A Informação Desenfreada e as Terapias Alternativas
Apesar
do avanço da ciência em geral e da medicina em particular, muitas
pessoas com problemas de saúde, inclusive algumas com problemas
mais sérios, se voltam para métodos de tratamento duvidosos, não
confirmados cientificamente e inocentemente chamados de tratamentos
alternativos.
Alguns
casos realmente se justificam, tendo em vista a avassaladora
perspectiva de incurabilidade, de sofrimento crônico, de morte
iminente e outros estados igualmente aterradores. Justificam-se mais
quando se constata a falta de recursos da medicina tradicional,
quando tudo já fora feito e os resultados continuam desanimadores.
Nessas circunstâncias as pessoas ficam tentadas a experimentar
qualquer coisa que ofereça alívio ou esperança. Nada contra.
Em
tese, os doentes terminais, os idosos em busca da protelação da
velhice e várias minorias culturais menos esclarecidas são
especialmente vulneráveis aos tratamentos chamados alternativos, às
fraudes e ao próprio charlatanismo. Entretanto, muitas outras
pessoas inteligentes e socialmente diferenciadas também procuram as
mais exóticas terapias alternativas possíveis para aliviar seus
males.
Ao
invés de uma crítica destrutiva, esse artigo visa compreender todo
esse processo difícil de conceber, à primeira vista, de negação
da ciência. Antes de qualquer coisa, vamos deixar claros dois
pontos inquestionáveis: 1. - a medicina é tão mais útil quanto
mais definida é a doença, ou seja, se tem doença pode ser útil,
senão não e; 2 – ela não atende aos extremos, ou seja, não
havendo doença ou, ao contrário, sendo a doença reconhecidamente
incurável, a Medicina Curativa não serve (veja Medicina
Paliativa para esses casos).
Uma
boa parte da culpa pela exploração da boa fé é a liberdade de
divulgação, fazendo as pessoas acreditarem que qualquer tema de saúde
divulgado pela televisão, pela internet, pelos jornais e revistas,
deve ser verdadeiro. Além disso, outra parcela da culpa é o fato
habitual das pessoas acreditarem nas experiências dos outros,
quando isso interessa, sejam amigos, conhecidos, artistas, etc.
Finalmente, é próprio da natureza humana o fascínio pelas soluções
rápidas, fáceis, indolores e sem drogas para seus problemas.
A
área da saúde é extremamente complicada, quase como a política e
a religião. O ser humano comum tem acesso a um grande volume de
informação sobre saúde; rádio, jornais revistas, televisão,
internet... Olhando uma
banca de revistas, por exemplo, a manchete de capa de mais da metade
delas diz respeito à saúde e aos cuidados com o corpo ou forma física.
Mas o que as pessoas comuns sabem de fato?
Muito
provavelmente sabem um amontoado de fatos e informações médicas
ao acaso, isoladas e aprendidas de várias fontes, idôneas e inidôneas,
comerciais, ideológicas, esotéricas e exóticas, incluindo o
folclore familiar e o palavrório das publicidades da moda.
Estatisticamente, talvez, a maioria das pessoas tenha mais informações
certas que erradas, mas poucas têm condições de discernimento e
capacidade clínica para analisar essas informações de forma
abrangente, integrada, clínica ou, como se diz atualmente, holística.
Vamos
dar um exemplo do que se quer dizer, “falta de visão clínica e
holística”. Certa vez um programa de televisão divulgou
“recentes pesquisas” que apontavam os efeitos deletérios do uso
continuado de insulina sobre a visão. Alguns pacientes diabéticos,
tentando prevenir os malefícios dessa droga sobre a visão,
interromperam seu uso. Evidentemente tiveram sérias complicações
de diabetes.
O
que faltou, nesse exemplo, é a compreensão da relação
custo-benefício dos tratamentos médicos; os mortos enxergam menos
ainda do que aqueles em uso “deletério” da insulina. O mesmo
raciocínio se aplica quando alguma “recente pesquisa nos
Estados Unidos” divulga os efeitos maléficos dos
antidepressivos, por exemplo, não levando em conta os inegáveis
benefícios dos milhões de depressivos do mundo eficientemente
tratados.
Quando
a mídia, motivada exclusivamente pela preferência popular (e essa
palavra é perigosíssima) divulga um assunto médico, deveria ter a
consciência de que, entre os milhares (ou milhões) de leitores ou
ouvintes, existirá expressiva parcela que vai entender a informação
de forma diferente ou errada, e às vezes, fará dela um uso
indevido ou mesmo perigoso.
Perfil dos Adeptos aos Tratamentos Alternativos e Soluções Mágicas
Desde a antiguidade as pessoas procuram, ávida e
fantasiosamente, por pelo menos quatro poções mágicas diferentes:
a poção do amor, a fonte da juventude e beleza, a cura para tudo e
a pílula da super-atlética e incansável pessoa. Explorando esse
sonho arquetípico é que as terapias alternativas ganham terreno.
Algumas
pessoas são facilmente levadas pela promessa de uma solução fácil
para seus problemas. Aquelas pessoas que compram um livro de dieta
da moda após o outro, livros do tipo “Conversando com as
Plantas”, “12 Maneiras Infalíveis de Ser Feliz”, “Aprenda Inglês enquanto
Dorme”, “Usando a Mente
para Influenciar Pessoas”, “Vencendo na Vida sem sair do
Sofá” ou coisas que o valham, estão nesta categoria.
Muitas pessoas sofrem de dores crônicas, indisposições
ou outros desconfortos e descontentamentos para as quais a medicina
não é capaz nem de oferecer um diagnóstico claro, quanto mais um
tratamento eficiente. Normalmente entram no consultório dizendo que
...não sabem nem por onde começar... que seu mal estar é assim,
digamos, difícil de explicar..., que nem mesmo sabem o que
querem...
Ora,
primeiramente, a questão é saber se essa pessoa quer, realmente,
amanhecer um dia e dizer: meu Deus como me sinto bem, como estou
satisfeita, podem contar comigo porque eu sou sadia, podem cuidar
dos outros porque eu não sinto nada, não preciso de atenção,
pois estou normal... Será que seriam capazes dessa proeza? Não,
acho que não. Para essas pessoas realmente a medicina tem pouco a
fazer.
O ruim da medicina é que essas pessoas, insatisfeitas
com sua vida, muitas vezes caem nas mãos de médicos bem pouco
preparados, ou comercialmente bastante preparados, que fazem diagnósticos
da moda, vagos e de difícil constatação, tais como a famigerada
hipoglicemia, fibromialgia, síndrome da fadiga crônica, LER (lesão
de esforço repetitivo), etc. Não que tais doenças não tenham uma
descrição médica, porém, o que se discute é a freqüência e
conveniência com que esses diagnósticos são dados.
Muitas
vezes um diagnóstico médico é a aquisição mais importante da
pessoa, como uma espécie de credencial definitiva para passar a
vida toda rastejando com uma proveitosa invalidez e buscando curas
através das mais milagrosas vias.
Algumas
pessoas, também incluídas entre aquelas que utilizarão métodos
alternativos e excêntricos, são aquelas que se autodenominam “autênticas”.
Na realidade são pessoas que desejam ser diferentes das demais,
talvez como necessidade de se sentirem espertas, superioras,
diferenciadas, enfim, pessoas que almejam compensar eventuais
complexos de inferioridade de alguma maneira.
Outros
pacientes têm problemas com a autoridade, seja ela qual for,
incluindo aqui a autoridade médica. Normalmente são pessoas
carentes de auto-afirmação ou que se sentem ameaçadas em sua
pretensa soberania, diante de qualquer pessoa que possa “mandar”
neles. Este tipo de paciente tende a rejeitar qualquer método
recomendado pela medicina tradicional, meramente porque foi
recomendada por alguém que (imagine só!) entende mais que ele.
Principalmente quando sente a necessidade de mostrar para alguém,
normalmente filhos ou cônjuges, que ele é quem realmente sabe e
decide tudo.
São
de risco também as pessoas que comunicam ao médico sobre sua
extrema e incomum sensibilidade aos medicamentos (não disse alergia
ao produto, mas ‘sensibilidade’), aquelas que dizem sem vergonha
de parecer superioras, que nelas os medicamentos fazem efeito ao
contrário, sugerindo nas entrelinhas sua natureza impar, incomum,
um verdadeiro desafio à medicina. Com essas devemos estar
preparados para o surgimento de todo tipo de efeitos colaterais, por
mais absurdos que possam parecer à fisiologia humana.
Muitas
pessoas se deparam com problemas situados nos dois extremos do
espectro médico; ou têm, realmente, um gravíssimo problema de saúde,
para o qual a medicina já não tem mais recursos ou, ao contrário,
têm algum problema em suas vidas que, decididamente, não é de
natureza médica e, para o qual a medicina também não tem solução
(ou não tem nada a ver com isso). Nesses casos, “descrentes”
dos médicos, essas pessoas procuram ajuda alternativa, exótica,
excêntrica e mágica, até com um certo descaso para com a ciência
e com ares de quem, de fato, encontrou a solução “apesar dos
médicos não ajudarem”.
Compreendemos,
perfeitamente, as pessoas que sentem sua saúde gravemente ameaçada
e esperam, obviamente, algo que possa e deva ser feito para curá-las.
Isso faz parte da desejável esperança de qualquer pessoa.
Entretanto, diante a inexorabilidade da finitude humana, nem sempre
os desejos dessas pessoas podem ser atendidos pela ciência atual.
Assim, na possibilidade de sofrimento crônico ou da morte que se
aproxima, é natural que não se consiga aceitar o duro veredicto
desses casos. Infelizmente, tal desespero tem enriquecido pessoas
mal intencionadas e charlatões de todo tipo, que vivem se
aproveitando do sofrimento e da inocência alheia.
Com
relação ao arsenal religioso para solução dos problemas, já
escrevemos alguma coisa sobre os “Cultos
da Aflição”, quando tratamos dos casos de possessões. Um
dos perigos mais contundentes desses cultos que reúnem pessoas
desesperadas é tentar alterar o significado de alguma doença para
aquele que a está sofrendo. Tais rituais não implicam,
obrigatoriamente, na remoção definitiva dos sintomas, mas na mudança
dos significados que a pessoa atribui a esses sintomas (encosto,
mal-olhado, feitiço, mandinga, e toda sorte de influências capazes
de retirar da pessoa a responsabilidade por seu destino). O risco
mais perigoso, aqui, é protelar perigosamente um tratamento médico
adequado.
De fato é atraente a idéia de resolvermos nossos
problemas através da magia, seja ela representada pelos pensamentos
positivos, pelos aromas terapêuticos, energias várias, auras,
defumadores, incensos, etc. Sem dúvida, seria bem mais fácil
borrifar algum floral em nosso aparelho de televisão quebrado, virá-lo
para o lado “terra” da casa ou coloca-la sob um triângulo, ao
invés da tediosa tarefa de procurar um técnico, submeter a tv à
sua questionável competência, ficar sem o aparelho por dias, etc.
Mas, as coisas são de fato duras, às vezes.
Naturalismo
Algumas
pessoas são defensoras incansáveis dos tais “métodos
naturais”. Mas só quando isso não diz respeito a uma infindável
lista de recursos artificiais criados pela ciência para melhorar
nossa qualidade de vida, tais como, andar de carro, assistir tv,
usar anticoncepcionais, camisinha, adoçante artificial, óculos,
celulares, bebidas alcoólicas, etc, etc, etc.
Se
o naturalismo pretendido fosse, ao menos, uma atitude coerente não
teria tanto problema. Há pessoas que se gabam por tomar suco de
maracujá para se acalmar, mas, além de não se acalmarem, se
recusam veementemente a tomar um comprimido de Passiflora, a qual,
além de natural, corresponde a 100 maracujás, e aí sim, poderíamos
esperar algum resultado terapêutico, ainda que acanhado. Acontece
que, o fato da passiflora vir em forma de comprimido, sugere para
muitos que é (céus!) um produto artificial. Santa ignorância.
Amigo leitor, natural é não ficar “nervoso”.
Mas,
de qualquer forma, a natureza e tudo o que é natural exerce um fascínio
nas pessoas. Lembro de uma paciente, com sérios problemas em
encontrar um rumo para sua vida, que recorria ao psiquiatra como
possível salvador de seu descontentamento (que é bem diferente de
depressão) e que, evidentemente, não melhorava com o tratamento
tradicional.
Como
representante de uma especialidade médica, não havia muito o quê
melhorar, ou melhor, que “doença” melhorar nessa senhora. Muito
tempo depois dela ter desistido de buscar nos antidepressivos
tradicionais a “cura” para seu mal estar existencial,
encontrei-a casualmente, dizendo estar se sentindo ótima com um
novo tratamento por injeções à base de ouro. Sim, ouro, essa
coisa bastante natural. Algo me dizia que, para pessoas assim, se
esse ouro viesse em forma de jóias o efeito seria o mesmo.
De fato, os profissionais alternativos costumam fazer da
natureza sua aliada secreta, atribuindo a seu tônico de ervas o
poder de cura, as pedras, cristais, águas quentes e sulfurosas,
plantas contra influências negativas, flores e florais. E realmente
existe um enorme fascínio nisso tudo. Quando a ciência pega a
plantinha Belladona, que nossos bisavós usavam em forma de chá
para aliviar cólicas, purifica-a, retira dela seu princípio ativo,
a atropina, faz milhares de trabalhos científicos para testar a
eficácia da substância, estabelece doses e critérios para ministrá-la
e define a quais diagnósticos ela serve, aí parece que perde a graça.
Prefere-se consultar uma pessoa ‘iluminada’ que receita chá de
Belladona.
O
termalismo é considerado o tratamento de enfermidades com as águas
sulfurosas. Veja bem: tratamento. Um site
de Poços de Caldas não se constrange em dar as indicações médicas
para o uso de suas águas sulfurosas: reumatismos, fraturas,
paralisias (?), varizes, bronquites, artrite, flebites, neurites,
nevralgias, artrose, doenças de pele (?), doenças alérgicas (?),
gota, artrose, intoxicação medicamentosa. Ali não diz que as
pessoas não devem abandonar o tratamento médico que porventura
estejam fazendo, mas simplesmente indicam as águas termais para
essa lista bizarra de doenças.
Ali
não diz que as pessoas não devem abandonar o tratamento médico
que porventura estejam fazendo, mas simplesmente indicam as águas
termais para essa lista bizarra de doenças. Um trecho da página
sobre o Balneário "Dr. Reynaldo de Oliveira Pimenta",
em Pocinhos do Rio Verde, onde “você poderá banhar-se com
águas sulfurosas e curativas”.
A Medicina Tradicional Perdendo Terreno
A própria medicina pode estimular a busca dos
tratamentos fantásticos, exóticos e mágicos. A postura muitas
vezes arrogante de alguns médicos, atitudes rudes, a falta de paciência
em escutar o paciente, as freqüentes omissões de explanações e a
falta de uma comunicação clara sobre os prognósticos são, sem dúvida,
muito desencorajadores. Alguns pacientes simplesmente fogem disso
tudo, seja por medo ou aversão. Além de tudo, alguns médicos
respeitáveis não têm a mesma amabilidade de outros profissionais,
digamos, alternativos.
Até
pacientes que têm a medicina e seus médicos em alta conta, podem
ter um conceito bastante negativo dos médicos como grupo, em geral.
Essa empáfia da medicina oficial pode afugentar muitos pacientes.
Entre
as várias razões pesquisadas para que as técnicas alternativas
tenham características atraentes para muita gente, uma delas é o
tempo prolongado que os profissionais alternativos dedicam a escutar
e examinar seus pacientes.
Segundo
alguns pesquisadores (Zollman e Vickers, citados por Matias
Loewy), o tempo de atenção pode ser terapêutico para pessoas
que sofrem de transtornos crônicos e que têm a necessidade de
contar todos os seus problemas. Normalmente os médicos tradicionais
não se dedicam a ouvir o tanto necessário.
Segundo esses autores (Vickers
A, Zollman C. - ABC of complementary medicine. The manipulative
therapies: osteopathy and chiropractic, British Medical Journal.
1999 Oct 30;319 (7218):1176-9.; Zollman C, Vickers A. - ABC of
complementary medicine: complementary medicine and the doctor,
British Medical Journal. 1999 Dec 11;319 (7224):1558-61),
dos pacientes que procuram formas alternativas de tratamento, como a
homeopatia ou a acupuntura (que não devem, de forma alguma, se
misturarem com as tais terapias alternativas tratadas aqui) ,
80% declaram estar satisfeitos.
Para
eles, alguns setores da medicina oficial lidam com os pacientes
apenas através de seus aspectos biofísicos, distanciando-se da
maneira humanista de lidar com os problemas das pessoas. Trata-se de
um aspecto "desumanizador" do médico, fazendo com que as
pessoas busquem um tratamento mais humano e caloroso, mesmo em técnicas
menos acadêmicas e informais.
para refererir:
Ballone GJ - Terapias Alternativas, in. PsiqWeb, Internet,
disponível em <http://www.virtualpsy.org/trats/alternativos.html>
2003