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Índice - Tratamentos
Ansiedade Generalizada
Autismo Infantil
Depressão
Doença Alzheimer
Esquizofrenia
Ejaculação Precoce
Transt. de Ereção
Fobias
Obesidade
Síndrome do Pânico
Síndrome X Frágil
Deficiência Mental
Anorexia, Bulimia
Transtorno Bipolar
Transt. Hipercinético
Crianças hiperativas Obsessivo-Compulsivo

 


 

   

TERAPIAS ALTERNATIVAS

Preocupados com a banalização do termo terapia, achamos importante discorrer um pouco sobre essa palavra e o sentido que se atribui a ela. O princípio básico de uma sociedade se manter coerente é a concordância lingüística, ou seja, quando alguém diz vermelho, todos devem entender o que quis dizer.

Pois bem. Terapia é o exercício da Terapêutica que, pelo dicionário do Aurélio, significa “a parte da medicina que estuda e põe em prática os meios adequados para aliviar ou curar os doentes”. Pelo dicionário Melhoramentos da Língua Portuguesa é absolutamente a mesma coisa, com as mesmas palavras. No dicionário Michaelis tem o mesmo significado com outras palavras, ou seja, “1 Parte da Medicina que se ocupa da escolha e administração dos meios de curar doenças, e da natureza dos remédios. 2 Tratamento das doenças.

Na língua inglesa o termo Terapêutica é igualmente preciso. Segundo o dicionário Webster, em Therapeutic lê-se “That part of medical science which treats of the discovery and application of remedies for diseases” (Essa parte da medicina se ocupa da descoberta e da aplicação dos remédios para doenças).

Em francês, o Dictionnaire de L'Académie Française diz, do termo Thérapeutique o seguinte: “s. f. Partie de la médecine qui a pour objet la manière de traiter, de soigner et de guérir les maladies. Cours de thérapeutique." (Parte a medicina que tem como um objeto a maneira de tratamento, de cuidar e de curar as doenças).  

Veja também sobre a Ansiedade nas seguintes páginas:

Transt. de Ansiedade

Esgotamento
Síndrome do Pânico
Agorafobia
Transt. Fóbico
Fobia Social
Ansiedade-Depressão

 

Eletroconvulsoterapia

Litio e Litioterapia

Efeito Placebo

 

 

Veja Quando se deve Buscar Tratamento Psiquiátrico em Crianças e Adolescentes

 

O Papel da Medicina (da Psiquiatria) 

Não pretendemos aqui, absolutamente, desestimular as pessoas a procurar alternativas de soluções para seus males. Pretendemos sim, estabelecer limites para o atendimento médico em geral e, em particular, para o atendimento psiquiátrico. Pretendemos orientar as pessoas sobre o que, exatamente, devem esperar da medicina e da sua especialidade psiquiátrica.

A medicina (enfatizando sempre a psiquiatria, dentro dela) se ocupa das doenças, seja curativamente ou preventivamente. E ela não deve abrir mão do monopólio do diagnóstico médico e do tratamento, porém, do diagnóstico e tratamento das doenças, e não da variadíssima problemática existencial das pessoas.
Uma parcela da culpa pelas pessoas procurarem aquilo que entendem por terapias alternativas ou esdrúxulas é dos próprios médicos. Primeiramente, porque a classe médica permitiu que nossa cultura atribuísse ao termo terapia limites muito distantes da realidade lingüística da palavra terapêutica.

O significado de terapia deveria ser absolutamente restrito à atitude de curar doenças. A origem do termo terapia vem de terapêutica que, segundo o dicionário Aurélio, é a parte da medicina que estuda e põe em prática os meios adequados para aliviar ou curar os doentes.

Mas, deixemos essa questão vernacular de lado (não tem mais jeito mesmo). Vamos à segunda questão da culpa dos médicos.
A medicina sempre considerou o conhecimento científico médico corrente como o único válido para atender pessoas. 

Porém, a despeito da medicina ser, inquestionavelmente, a ciência mais bem preparada para atender medicamente as pessoas, ela não é a única e nem a opção de atendimento, quando esse atendimento ultrapassa a questão médica. Existe um atendimento espiritual, antropológico, estético, psicológico, religioso, etc.

Em se optando por quaisquer outros tipos de atendimento, a pessoa deverá ser responsável por sua escolha. Mas o maior perigo é a falta de discernimento das pessoas quanto a natureza de boa parte de seus problemas; se são problemas de saúde ou são problemas existenciais. "Doutor, meu filho é desorganizado". "Doutor, minha esposa briga muito comigo". "Doutor, eu tenho dúvidas se casei com a pessoa certa". "Doutor, não gosto de meu emprego..." 

Esses são alguns exemplos de queixas indevidamente levadas à psiquiatria, embora exista sempre um determinado psiquiatra presunçoso que se apossa dessas questões. 

A psiquiatria deveria ficar restrita às psicoses, neuroses, ansiedade, depressão ou outras doenças criteriosamente diagnosticadas através dos manuais internacionais e não com a problemática do existir humano.

Portanto, muitas vezes a questão do discernimento sobre a natureza e triagem dos problemas está dentro da própria psiquiatria. E se a psiquiatria se ocupa de problemas que não são seus, para os quais nem está preparada, muito possivelmente não trará soluções, logo, favorecerá para que as pessoas, desencantadas, procurem terapias alternativas. Pretende-se com esse termo (terapia alternativa), uma atitude que seja alternativa à medicina. 

Na realidade, essas terapias alternativas não são terapias (quando não existe doença) e, nem tampouco são alternativas à medicina, já que o assunto não costuma ser da medicina.

Portanto, como se vê nos vários idiomas, terapêutica implica primeiro, em “parte da medicina” e, em seguida, diz respeito a tratar “doenças”. Isso quer dizer que, a rigor, a terapêutica deveria ser exercida na medicina e sempre destinada às doenças.

 Não se encontra em nenhum dicionário a expressão terapia emancipada de terapêutica. Assim sendo, há um paradoxo muito grande nas expressões Terapia Ocupacional, Fisioterapia, mesmo a Psicoterapia e outras menos acadêmicas. Os dicionários que consultamos não trazem uma definição dessas “terapias”, assim sendo, procuramos seus conceitos, como é o caso da Terapia Ocupacional, conceituada pela Universidade de Lund através de um texto de 263 palavras e em nenhum momento disse “curar”.

Fisioterapia, por sua vez, é conceituada com 68 palavras no site Chartered Society of Physiotherapy. “A fisioterapia é uma profissão que cuida da saúde maximizando o potencial, a função e o movimento humanos: usa intervenções físicas para promover, manter e restaurar o bem estar físico, psicológico e social, fazendo exame do cliente e das variações no status de sua saúde...”.

Para o bom andamento da ciência e do conhecimento humano, a terapêutica não pode ser entendida como as pessoas gostariam, como acreditam ser, como desejariam que fosse. Isso é de importância capital para que as pessoas não sejam iludidas, ludibriadas ou, mais grave ainda, inebriadas pelas fantasias próprias do mundo infantil e que podem persistir na vida adulta.

Dizemos isso para entender que qualquer atividade que se diz terapêutica seja, obrigatória e imperiosamente, associada a um diagnóstico e a um método cientificamente reconhecido eficaz (cientificamente eficaz é quando obedece a lógica da metodologia científica, a mesma que criou sua televisão, seu carro, seu computador, suas roupas, etc).

E o que se quer dizer com a expressão Terapia Alternativa. Como terapia, por definição, é própria da medicina, terapia alternativa deveria ser uma terapia não-médica. Quanto a isso não temos dúvida, embora, por definição essa expressão não devesse existir.

Mas, deixando de lado essa incongruência lingüística, para que a terapia seja realmente alternativa ela deveria se ocupar de uma questão médica através de métodos não médicos. Ora, quanto aos métodos não-médicos não temos nada a opor. Eles estão aí e refletem todo o universo da criatividade humana, e nem cabem na medicina.

Porém, quanto às questões médicas que as terapias alternativas se ocupam temos muitas dúvidas. Dúvidas em saber se, de fato, se tratam de questões médicas, ou seja, se são estados claramente diagnosticados, se estão classificados como doenças. Sendo doenças são, realmente, objeto da medicina. Não sendo, não são. Simples. Portanto, não pode existir terapia alternativa para "curar" mal-olhado, insatisfação com o modo de vida, aversão ao marido, aborrecimentos com o chefe, inveja de visinhos, etc porque estas não são questões médicas.

O Profissional Alternativo

Vamos tentar definir aqui o profissional alternativo como sendo aquele que se auto-atribui a função de também “curar”, não necessariamente doenças (daí as aspas em ‘curar’), utilizando métodos diferentes daqueles estabelecidos pela medicina tradicional (veja nas colunas ao lado, algumas reflexões sobre a Medicina Tradicional).

O Banho de Ofurô é um exemplo disso. Chamam-no de terapêutico, porém, não sabemos exatamente a que doença se destina. Por outro lado, se considerarmos que o banho de ofurô é relaxante, agradável, prazeroso, etc, tudo bem e está correto. Mas, se o profissional que aplica tais banhos começar com indicações para essa ou aquela doença, a questão é bem outra. Se for assim, então a ciência que se ocupa dos banhos de ofurô deve, em respeito à racionalidade humana, divulgar (como a medicina faz) seus métodos de diagnóstico e a fisiologia da cura através dessas imersões perfumadas.

Esse exemplo do banho de ofurô é apenas uma pálida idéia das centenas de investidas fantasiosas que a sociedade faz acerca das terapias. Para exercer-se a terapêutica é absolutamente obrigatório o diagnóstico, como vimos acima, não se concebendo aquela sem que este esteja muito bem estabelecido, ainda como hipótese. Quando alguém diz que está tratando (fazendo uma terapia), o mínimo que se pode perguntar é, o que, exatamente, essa pessoa está tratando.

Evidentemente, se alguém estiver usando essas tais terapias fora da medicina tradicional para tratar uma doença, por exemplo, uma insuficiência renal aguda, aí sim podemos chamar de Terapia Alternativa, alternativa ao modelo médico. Porém, se estiver tratando de desequilíbrio energético, de fraqueza da aura, de influências espirituais, etc, então não é Terapia Alternativa, simplesmente porque a medicina tradicional não se ocupa desses ‘diagnósticos’.

Agora, se o profissional não médico estiver usando essas tais terapias alternativas para tratar uma insuficiência renal (ou uma esquizofrenia) como se fosse uma influência espiritual, aí será crime e não terapia alternativa. Em nossa opinião, crime hediondo.

O Termalismo, chamado por alguns de Hidroterapia (competindo com a hidroterapia da fisioterapia), é outro exemplo. O termalismo é considerado o tratamento de enfermidades com as águas sulfurosas. Veja bem: tratamento. Um site de Poços de Caldas não se constrange em dar as indicações médicas para o uso de suas águas sulfurosas: reumatismos, fraturas, paralisias (?), varizes, bronquites, artrite, flebites, neurites, nevralgias, artrose, doenças de pele (?), doenças alérgicas (?), gota, artrose, intoxicação medicamentosa.

Ali não diz que as pessoas não devem abandonar o tratamento médico que porventura estejam fazendo, mas simplesmente indicam as águas termais para essa lista bizarra de doenças. Um trecho da página sobre o Balneário "Dr. Reynaldo de Oliveira Pimenta",  em Pocinhos do Rio Verde, onde “você poderá banhar-se com águas sulfurosas e curativas”.

A força do profissional alternativo está, geralmente, no fascínio do discurso. Contrariando a complexidade da ciência médica, cujo entendimento é bastante trabalhoso para pessoas não versadas em medicina, são usadas algumas palavras fáceis e abrangentes para no intuito de convencer com simplicidade. Para eles, de maneira simplória, todas as doenças são "desequilíbrios", e qualquer coisa que o profissional alternativo faça será no sentido de recupera esse "equilíbrio".

Como todos entendem, embora ninguém veja esse “desequilíbrio”, fica fácil trata-lo com as mais estapafúrdias mandingas e simpatias, tais como irradiações, mãos energéticas, aromas, luzes, cristais, banhos, etc. E como o ser humano é, por natureza, extremamente influenciável, as pessoas podem sentir-se momentaneamente bem com todo esse aparato litúrgico. Até para provarem a si mesmas que estavam certas em procurar esse tipo de ajuda.

O profissional alternativo deve ser simples, fácil de entender e fascinante em suas explicações. Veja, por exemplo, o que diz uma página da internet sobre a cromoterapia. “A cromoterapia é um tratamento com aplicação de banhos de luz colorida com lâmpadas. Isto provoca uma energização de todo o sistema celular e conseqüentemente uma autocura em todos os níveis do corpo humano: Clinicamente, Hormonalmente, Quimicamente, Sistema Nervoso, Emocional e Espiritual. O nosso corpo necessita da vibração de certas cores, que dependem da atividade energética dos chakras”. Dispenso comentários.

De fato, até onde a ciência pode explicar, o maior aliado dos profissionais alternativos é a fé do paciente. A fé sim, como crença irremovível e inabalável, exerce grande influência no estado geral das pessoas e, inclusive, opera grandes alterações no eixo hipotálamo-hipófise-“outras glândulas” (principalmente tireóide e suprarrenais), com conseqüentes alterações orgânicas.

A Informação Desenfreada e as Terapias Alternativas

Apesar do avanço da ciência em geral e da medicina em particular, muitas pessoas com problemas de saúde, inclusive algumas com problemas mais sérios, se voltam para métodos de tratamento duvidosos, não confirmados cientificamente e inocentemente chamados de tratamentos alternativos.

Alguns casos realmente se justificam, tendo em vista a avassaladora perspectiva de incurabilidade, de sofrimento crônico, de morte iminente e outros estados igualmente aterradores. Justificam-se mais quando se constata a falta de recursos da medicina tradicional, quando tudo já fora feito e os resultados continuam desanimadores. Nessas circunstâncias as pessoas ficam tentadas a experimentar qualquer coisa que ofereça alívio ou esperança. Nada contra.

Em tese, os doentes terminais, os idosos em busca da protelação da velhice e várias minorias culturais menos esclarecidas são especialmente vulneráveis aos tratamentos chamados alternativos, às fraudes e ao próprio charlatanismo. Entretanto, muitas outras pessoas inteligentes e socialmente diferenciadas também procuram as mais exóticas terapias alternativas possíveis para aliviar seus males.

Ao invés de uma crítica destrutiva, esse artigo visa compreender todo esse processo difícil de conceber, à primeira vista, de negação da ciência. Antes de qualquer coisa, vamos deixar claros dois pontos inquestionáveis: 1. - a medicina é tão mais útil quanto mais definida é a doença, ou seja, se tem doença pode ser útil, senão não e; 2 – ela não atende aos extremos, ou seja, não havendo doença ou, ao contrário, sendo a doença reconhecidamente incurável, a Medicina Curativa não serve (veja Medicina Paliativa para esses casos).

Uma boa parte da culpa pela exploração da boa fé é a liberdade de divulgação, fazendo as pessoas acreditarem que qualquer tema de saúde divulgado pela televisão, pela internet, pelos jornais e revistas, deve ser verdadeiro. Além disso, outra parcela da culpa é o fato habitual das pessoas acreditarem nas experiências dos outros, quando isso interessa, sejam amigos, conhecidos, artistas, etc. Finalmente, é próprio da natureza humana o fascínio pelas soluções rápidas, fáceis, indolores e sem drogas para seus problemas.

A área da saúde é extremamente complicada, quase como a política e a religião. O ser humano comum tem acesso a um grande volume de informação sobre saúde; rádio, jornais revistas, televisão, internet...  Olhando uma banca de revistas, por exemplo, a manchete de capa de mais da metade delas diz respeito à saúde e aos cuidados com o corpo ou forma física. Mas o que as pessoas comuns sabem de fato?

Muito provavelmente sabem um amontoado de fatos e informações médicas ao acaso, isoladas e aprendidas de várias fontes, idôneas e inidôneas, comerciais, ideológicas, esotéricas e exóticas, incluindo o folclore familiar e o palavrório das publicidades da moda. Estatisticamente, talvez, a maioria das pessoas tenha mais informações certas que erradas, mas poucas têm condições de discernimento e capacidade clínica para analisar essas informações de forma abrangente, integrada, clínica ou, como se diz atualmente, holística.

Vamos dar um exemplo do que se quer dizer, “falta de visão clínica e holística”. Certa vez um programa de televisão divulgou “recentes pesquisas” que apontavam os efeitos deletérios do uso continuado de insulina sobre a visão. Alguns pacientes diabéticos, tentando prevenir os malefícios dessa droga sobre a visão, interromperam seu uso. Evidentemente tiveram sérias complicações de diabetes.

O que faltou, nesse exemplo, é a compreensão da relação custo-benefício dos tratamentos médicos; os mortos enxergam menos ainda do que aqueles em uso “deletério” da insulina. O mesmo raciocínio se aplica quando alguma “recente pesquisa nos Estados Unidos” divulga os efeitos maléficos dos antidepressivos, por exemplo, não levando em conta os inegáveis benefícios dos milhões de depressivos do mundo eficientemente tratados.

Quando a mídia, motivada exclusivamente pela preferência popular (e essa palavra é perigosíssima) divulga um assunto médico, deveria ter a consciência de que, entre os milhares (ou milhões) de leitores ou ouvintes, existirá expressiva parcela que vai entender a informação de forma diferente ou errada, e às vezes, fará dela um uso indevido ou mesmo perigoso.

Perfil dos Adeptos aos Tratamentos Alternativos e Soluções Mágicas

Desde a antiguidade as pessoas procuram, ávida e fantasiosamente, por pelo menos quatro poções mágicas diferentes: a poção do amor, a fonte da juventude e beleza, a cura para tudo e a pílula da super-atlética e incansável pessoa. Explorando esse sonho arquetípico é que as terapias alternativas ganham terreno.

Algumas pessoas são facilmente levadas pela promessa de uma solução fácil para seus problemas. Aquelas pessoas que compram um livro de dieta da moda após o outro, livros do tipo “Conversando com as Plantas”, “12 Maneiras Infalíveis de Ser Feliz”, “Aprenda Inglês enquanto Dorme”, “Usando a Mente para Influenciar Pessoas”, “Vencendo na Vida sem sair do Sofá” ou coisas que o valham, estão nesta categoria.

Muitas pessoas sofrem de dores crônicas, indisposições ou outros desconfortos e descontentamentos para as quais a medicina não é capaz nem de oferecer um diagnóstico claro, quanto mais um tratamento eficiente. Normalmente entram no consultório dizendo que ...não sabem nem por onde começar... que seu mal estar é assim, digamos, difícil de explicar..., que nem mesmo sabem o que querem...

Ora, primeiramente, a questão é saber se essa pessoa quer, realmente, amanhecer um dia e dizer: meu Deus como me sinto bem, como estou satisfeita, podem contar comigo porque eu sou sadia, podem cuidar dos outros porque eu não sinto nada, não preciso de atenção, pois estou normal... Será que seriam capazes dessa proeza? Não, acho que não. Para essas pessoas realmente a medicina tem pouco a fazer.

O ruim da medicina é que essas pessoas, insatisfeitas com sua vida, muitas vezes caem nas mãos de médicos bem pouco preparados, ou comercialmente bastante preparados, que fazem diagnósticos da moda, vagos e de difícil constatação, tais como a famigerada hipoglicemia, fibromialgia, síndrome da fadiga crônica, LER (lesão de esforço repetitivo), etc. Não que tais doenças não tenham uma descrição médica, porém, o que se discute é a freqüência e conveniência com que esses diagnósticos são dados.

Muitas vezes um diagnóstico médico é a aquisição mais importante da pessoa, como uma espécie de credencial definitiva para passar a vida toda rastejando com uma proveitosa invalidez e buscando curas através das mais milagrosas vias.

Algumas pessoas, também incluídas entre aquelas que utilizarão métodos alternativos e excêntricos, são aquelas que se autodenominam “autênticas”. Na realidade são pessoas que desejam ser diferentes das demais, talvez como necessidade de se sentirem espertas, superioras, diferenciadas, enfim, pessoas que almejam compensar eventuais complexos de inferioridade de alguma maneira.

Outros pacientes têm problemas com a autoridade, seja ela qual for, incluindo aqui a autoridade médica. Normalmente são pessoas carentes de auto-afirmação ou que se sentem ameaçadas em sua pretensa soberania, diante de qualquer pessoa que possa “mandar” neles. Este tipo de paciente tende a rejeitar qualquer método recomendado pela medicina tradicional, meramente porque foi recomendada por alguém que (imagine só!) entende mais que ele. Principalmente quando sente a necessidade de mostrar para alguém, normalmente filhos ou cônjuges, que ele é quem realmente sabe e decide tudo.

São de risco também as pessoas que comunicam ao médico sobre sua extrema e incomum sensibilidade aos medicamentos (não disse alergia ao produto, mas ‘sensibilidade’), aquelas que dizem sem vergonha de parecer superioras, que nelas os medicamentos fazem efeito ao contrário, sugerindo nas entrelinhas sua natureza impar, incomum, um verdadeiro desafio à medicina. Com essas devemos estar preparados para o surgimento de todo tipo de efeitos colaterais, por mais absurdos que possam parecer à fisiologia humana.

Muitas pessoas se deparam com problemas situados nos dois extremos do espectro médico; ou têm, realmente, um gravíssimo problema de saúde, para o qual a medicina já não tem mais recursos ou, ao contrário, têm algum problema em suas vidas que, decididamente, não é de natureza médica e, para o qual a medicina também não tem solução (ou não tem nada a ver com isso). Nesses casos, “descrentes” dos médicos, essas pessoas procuram ajuda alternativa, exótica, excêntrica e mágica, até com um certo descaso para com a ciência e com ares de quem, de fato, encontrou a solução “apesar dos médicos não ajudarem”.

Compreendemos, perfeitamente, as pessoas que sentem sua saúde gravemente ameaçada e esperam, obviamente, algo que possa e deva ser feito para curá-las. Isso faz parte da desejável esperança de qualquer pessoa. Entretanto, diante a inexorabilidade da finitude humana, nem sempre os desejos dessas pessoas podem ser atendidos pela ciência atual. Assim, na possibilidade de sofrimento crônico ou da morte que se aproxima, é natural que não se consiga aceitar o duro veredicto desses casos. Infelizmente, tal desespero tem enriquecido pessoas mal intencionadas e charlatões de todo tipo, que vivem se aproveitando do sofrimento e da inocência alheia.

Com relação ao arsenal religioso para solução dos problemas, já escrevemos alguma coisa sobre os “Cultos da Aflição”, quando tratamos dos casos de possessões. Um dos perigos mais contundentes desses cultos que reúnem pessoas desesperadas é tentar alterar o significado de alguma doença para aquele que a está sofrendo. Tais rituais não implicam, obrigatoriamente, na remoção definitiva dos sintomas, mas na mudança dos significados que a pessoa atribui a esses sintomas (encosto, mal-olhado, feitiço, mandinga, e toda sorte de influências capazes de retirar da pessoa a responsabilidade por seu destino). O risco mais perigoso, aqui, é protelar perigosamente um tratamento médico adequado.

De fato é atraente a idéia de resolvermos nossos problemas através da magia, seja ela representada pelos pensamentos positivos, pelos aromas terapêuticos, energias várias, auras, defumadores, incensos, etc. Sem dúvida, seria bem mais fácil borrifar algum floral em nosso aparelho de televisão quebrado, virá-lo para o lado “terra” da casa ou coloca-la sob um triângulo, ao invés da tediosa tarefa de procurar um técnico, submeter a tv à sua questionável competência, ficar sem o aparelho por dias, etc. Mas, as coisas são de fato duras, às vezes.

Naturalismo

Algumas pessoas são defensoras incansáveis dos tais “métodos naturais”. Mas só quando isso não diz respeito a uma infindável lista de recursos artificiais criados pela ciência para melhorar nossa qualidade de vida, tais como, andar de carro, assistir tv, usar anticoncepcionais, camisinha, adoçante artificial, óculos, celulares, bebidas alcoólicas, etc, etc, etc.

Se o naturalismo pretendido fosse, ao menos, uma atitude coerente não teria tanto problema. Há pessoas que se gabam por tomar suco de maracujá para se acalmar, mas, além de não se acalmarem, se recusam veementemente a tomar um comprimido de Passiflora, a qual, além de natural, corresponde a 100 maracujás, e aí sim, poderíamos esperar algum resultado terapêutico, ainda que acanhado. Acontece que, o fato da passiflora vir em forma de comprimido, sugere para muitos que é (céus!) um produto artificial. Santa ignorância. Amigo leitor, natural é não ficar “nervoso”.

Mas, de qualquer forma, a natureza e tudo o que é natural exerce um fascínio nas pessoas. Lembro de uma paciente, com sérios problemas em encontrar um rumo para sua vida, que recorria ao psiquiatra como possível salvador de seu descontentamento (que é bem diferente de depressão) e que, evidentemente, não melhorava com o tratamento tradicional.

Como representante de uma especialidade médica, não havia muito o quê melhorar, ou melhor, que “doença” melhorar nessa senhora. Muito tempo depois dela ter desistido de buscar nos antidepressivos tradicionais a “cura” para seu mal estar existencial, encontrei-a casualmente, dizendo estar se sentindo ótima com um novo tratamento por injeções à base de ouro. Sim, ouro, essa coisa bastante natural. Algo me dizia que, para pessoas assim, se esse ouro viesse em forma de jóias o efeito seria o mesmo.

De fato, os profissionais alternativos costumam fazer da natureza sua aliada secreta, atribuindo a seu tônico de ervas o poder de cura, as pedras, cristais, águas quentes e sulfurosas, plantas contra influências negativas, flores e florais. E realmente existe um enorme fascínio nisso tudo. Quando a ciência pega a plantinha Belladona, que nossos bisavós usavam em forma de chá para aliviar cólicas, purifica-a, retira dela seu princípio ativo, a atropina, faz milhares de trabalhos científicos para testar a eficácia da substância, estabelece doses e critérios para ministrá-la e define a quais diagnósticos ela serve, aí parece que perde a graça. Prefere-se consultar uma pessoa ‘iluminada’ que receita chá de Belladona.

O termalismo é considerado o tratamento de enfermidades com as águas sulfurosas. Veja bem: tratamento. Um site de Poços de Caldas não se constrange em dar as indicações médicas para o uso de suas águas sulfurosas: reumatismos, fraturas, paralisias (?), varizes, bronquites, artrite, flebites, neurites, nevralgias, artrose, doenças de pele (?), doenças alérgicas (?), gota, artrose, intoxicação medicamentosa. Ali não diz que as pessoas não devem abandonar o tratamento médico que porventura estejam fazendo, mas simplesmente indicam as águas termais para essa lista bizarra de doenças.

Ali não diz que as pessoas não devem abandonar o tratamento médico que porventura estejam fazendo, mas simplesmente indicam as águas termais para essa lista bizarra de doenças. Um trecho da página sobre o Balneário "Dr. Reynaldo de Oliveira Pimenta",  em Pocinhos do Rio Verde, onde “você poderá banhar-se com águas sulfurosas e curativas”.

A Medicina Tradicional Perdendo Terreno

A própria medicina pode estimular a busca dos tratamentos fantásticos, exóticos e mágicos. A postura muitas vezes arrogante de alguns médicos, atitudes rudes, a falta de paciência em escutar o paciente, as freqüentes omissões de explanações e a falta de uma comunicação clara sobre os prognósticos são, sem dúvida, muito desencorajadores. Alguns pacientes simplesmente fogem disso tudo, seja por medo ou aversão. Além de tudo, alguns médicos respeitáveis não têm a mesma amabilidade de outros profissionais, digamos, alternativos.

Até pacientes que têm a medicina e seus médicos em alta conta, podem ter um conceito bastante negativo dos médicos como grupo, em geral. Essa empáfia da medicina oficial pode afugentar muitos pacientes.

Entre as várias razões pesquisadas para que as técnicas alternativas tenham características atraentes para muita gente, uma delas é o tempo prolongado que os profissionais alternativos dedicam a escutar e examinar seus pacientes.

Segundo alguns pesquisadores (Zollman e Vickers, citados por Matias Loewy), o tempo de atenção pode ser terapêutico para pessoas que sofrem de transtornos crônicos e que têm a necessidade de contar todos os seus problemas. Normalmente os médicos tradicionais não se dedicam a ouvir o tanto necessário.

Segundo esses autores (Vickers A, Zollman C. - ABC of complementary medicine. The manipulative therapies: osteopathy and chiropractic, British Medical Journal. 1999 Oct 30;319 (7218):1176-9.; Zollman C, Vickers A. - ABC of complementary medicine: complementary medicine and the doctor, British Medical Journal. 1999 Dec 11;319 (7224):1558-61), dos pacientes que procuram formas alternativas de tratamento, como a homeopatia ou a acupuntura (que não devem, de forma alguma, se misturarem com as tais terapias alternativas tratadas aqui) , 80% declaram estar satisfeitos.

Para eles, alguns setores da medicina oficial lidam com os pacientes apenas através de seus aspectos biofísicos, distanciando-se da maneira humanista de lidar com os problemas das pessoas. Trata-se de um aspecto "desumanizador" do médico, fazendo com que as pessoas busquem um tratamento mais humano e caloroso, mesmo em técnicas menos acadêmicas e informais. 

para refererir:
Ballone GJ - Terapias Alternativas, in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://www.virtualpsy.org/trats/alternativos.html> 2003

 

Copyright © G.J.Ballone