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ANSIEDADE E ESPORTE

Em geral o esporte é considerado sinônimo de saúde. Entretanto, como qualquer outra atividade humana, o esporte pode gerar excessos capazes de trazer problemas somáticos e/ou psíquicos eventualmente graves.

Embora as lesões físicas sejam as mais freqüentes, também as alterações psíquicas podem estar fortemente relacionadas à prática esportiva. Embora o aspecto psíquico seja menos conhecido, suas conseqüências sobre o desempenho da prática de esportes e, inversamente, a sobrecarga afetiva despertada pelo esporte vem ganhando cada vez mais atenção da medicina. Esta atenção se concentra também no tema do dopping, nos seus efeitos e connseqüências sobre o psiquismo do atleta.

Além disso, nos últimos dez anos, vem se destacando a importância da noção de Coping, um conceito divulgado por Lazarus (1984), definido como “o conjunto dos esforços cognitivos e de conduta destinados a controlar, reduzir ou tolerar as exigências internas ou externas que ameaçam ou superam os recursos de um indivíduo”. Na realidade, a idéia de Coping diz respeito ao empenho em vencer os obstáculos e a exigência adaptativa do atleta diante de seus objetivos.

 

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Veja artigo de Renata Rigacci, "Abulatório de Dependência da PUCCAMP"

1. - Esporte e Ansiedade

O esporte, em especial o esporte competitivo, é sinônimo de situações de avaliação comparativa (pelos outros e por si mesmo), de objetivos competitivos a alcançar, de desafios, de rivalidades, de espectativas, e de uma série de outros fatores associados, como por exemplo, de prestígio, de dinheiro, autoestima, admiração social, reconhecimento, etc.

Todas estas situações acabam gerando, nos atletas, estados afetivos e somáticos complexos e inerentes às particularidades de cada competição e de cada pessoalidade. Essas vivências esportivas, tendo em vista a pessoalidade de cada atleta e a carga afetiva que este coloca na competição, provocam reações emocionais atuais ou anticipatórios, tais como a ansiedade, estresse, medo, insegurança, depressão, angústia, etc (veja o conceito de Reações Vivenciais).

A prática clínica e as pesquisas relacionadas ao esporte mostram que o estresse e a ansiedade costumam ter um relacionamento muito polêmico com o rendimento esportivo. Tentando resolver o problema terminológico entre as diversas expressões usadas para se referir às reações de alerta, vamos considerar aqui a ansiedade, o estresse, a ativação nervosa, a reação de alerta ou de nervosismo, o esforço emocional durante ou antes da competição como sinônimos. Embora a psicopatologia atribua definições mais específicas e diferenciadas entre alguns desses termos, aqui eles podem ser considerados sinônimos, na medida em que dizem respeito à estados fisiológicos e psicológicos desencadeados diante da necessidade do atleta enfrentar algum desafio (Coping).

Zaichkowsky (1993), por sua vez, parte do princípio que este estado global do organismo pode representar uma tripla ação: a ativação fisiológica, a resposta comportamental e a resposta emocional.

O importante é que essas palavras nos dêem a noção de alerta, ansiedade e nervosismo associados à necessidade de superar obstáculos e conquistar objetivos. Não obstante, é importante também ter em mente que a principal diferença a ser considerada é em relação ao estado de Ansiedade Momentânea, que é aquela fisiológica e necessária para o indivíduo se adaptar a uma determinada circunstância e a Ansiedade Traço da Personalidade, que é a característica de determinadas pessoas, naturalmente ansiosas.

Embora não se tenham dúvidas de que, de fato, existe uma relação entre o rendimento esportivo e o estresse ou ansiedade, há controvérsias quanto ao tipo dessa relação. Alguns atletas consideram que as reações de estresse ou ansiedade atrapalham o desempenho, chegando a paralizá-los, enquanto outros acham que esses sentimentos os estimulam.

Em medicina entende-se o estresse ou ansiedade como uma ocorrência fisiológica global, tanto do ponto de vista físico quanto do ponto de vista emocional. As primeiras pesquisas médicas sobre esse estado estudaram toda uma constelação de alterações orgânicas produzidas no organismo diante de uma situação adversa.

A Ansiedade é, medicamente falando, uma atitude fisiológica (normal) responsável pela adaptação do organismo às situações novas, onde se encaixam bem as situações do esporte competitivo. As mudanças acontecidas em nossa performance física quando um cachorro feroz tenta nos atacar, quando fugimos de um incêndio, quando passamos apuros no trânsito, quando tentam nos agredir e assim por diante, são as mesmas quando nos encontramos diante de um atleta adversário.

Diante de situações de competição a performance física acaba fazendo coisas extraordinárias, coisas que normalmente não seríamos capazes de fazer em situações não-competitivas. A maior parte desta performance melhorada deve-se à ansiedade, porém, embora a ansiedade favoreça a performance e a adaptação, ela o faz somente até certo ponto, até que nosso organismo atinja um máximo de eficiência. A partir de um ponto excedente a ansiedade, ao invés de contribuir para a adaptação, concorrerá exatamente para o contrário, ou seja, para a falência da capacidade adaptativa. Nesse ponto crítico, onde a ansiedade foi tanta que já não favorece a adaptação, ocorre o esgotamento da capacidade adaptativa.

 

 

Vejamos ao lado, a ilustração de um gráfico ilustrativo, onde teríamos um aumento da adaptação proporcional ao aumento da ansiedade até um ponto máximo, com plena capacidade adaptativa. A partir desse ponto, embora a ansiedade continue aumentando, o desempenho ou adaptação cai vertiginosamente, assim sendo, ao invés da ansiedade melhorar a performance, acaba por compromete-la.

Em nossos ancestrais o mecanismo do estresse foi destinado à sobrevivência diante dos perigos concretos e próprios da luta pela vida, como foi o caso das ameaças de animais ferozes, das guerras tribais, das intempéries climáticas, da busca pelo alimento, da luta pelo espaço geográfico, etc. No ser humano moderno, apesar dessas ameaças concretas não mais existirem em sua plenitude como existiram outrora, esse equipamento biológico continuou existindo. Apesar dos perigos primitivos e concretos não existirem mais com a mesma freqüência, persistiu em nossa natureza a capacidade de reagirmos ansiosamente diante das situações novas, das ameaças.

Hoje em dia, emsmo fora do mundo esportivo, tememos a competitividade social, a segurança social, a competência profissional, a sobrevivência econômica, as perspectivas futuras e mais uma infinidade de ameaças abstratas e reais, enfim, tudo isso passou a ter o mesmo significado de ameaça e de perigo que as questões de pura sobrevivência à vida animal ameaçavam nossos ancestrais.

Se, em épocas primitivas o coração palpitava, a respiração ofegava e a pele transpirava diante de um animal feroz a nos atacar, se ficávamos estressados diante da invasão de uma tribo inimiga, hoje em dia nosso coração bate mais forte diante das exigências adaptativas do mundo moderno, onde se incluem os desafios do esporte competitivo, principalmente quando este ultrapassa a característica de lazer e passa a ser uma ocupação profissional (veja Estresse e Esgotamento).

Baseado nesse gráfico da em forma de U invertido que Hardy (1991) aplica a teoria das catástrofes na relação ansiedade-rendimento. O autor considera os efeitos da interação entre a ansiedade cognitiva e a ativação fisiológica no rendimento e o modelo da catástrofe preveria quando o nível de ansiedade cognitiva é muito alto, se observaria uma relação do tipo “catástrofe”, com deterioração brusca e catastrófica do rendimento.

Esse modelo, portanto, sugere que o aumento da ansiedade cognitiva poderia ter um efeito benéfico no rendimento em casos de baixos níveis de ativação fisiológica, mas teria efeitos bastante negativos em de níveis mais elevados.

Classicamente se considera a ansiedade excessiva um elemento negativo para o rendimento do atleta, e opiniões dos próprios atletas sobre esse aspecto são mais bastante evidentes, principalmente a ansiedade relacionada às expectativas de êxito por parte do próprio esportista ou sua sensação de satisfação da expectativa dos demais sobre sua vitória.

No esporte, é bastante didática a diferenciação da ansiedade em dois tipos, proposta por Martens (1990); a ansiedade cognitiva e a ansiedade somática, as quais não teriam a mesma influência no rendimento do atleta. Esse autor acha que o rendimento cairia quando a ansiedade cognitiva aumenta e, pelo contrário, melhoraria quando a ansiedade somática aumenta moderadamente, mas igualmente diminuindo quando esta última também é intensa.

Em termos de ansiedade somática, que surge no momento da competição e envolve a participação do organismo como um todo, colocando-o em estado de alerta e resultando no aumento dos níveis de adrenalina e cortisol, é preferível que o atleta tenha um nível levemente superior ao nível normal durante a competição.

Um elevado nível de ativação através da ansiedade somática é esencial para as atividades globais que requerem rapidez, resistência física e força, como por exemplo, nos jogos de futebol, basquete, lutas corporais, corridas, braço de ferro, natação, etc. Entretanto, um nível elevado de ansiedade somática seria negativo para habilidades complexas que exigem movimentos musculares finos, coordenação, concentração e equilíbrio.

A ansiedade cognitiva, por sua vez, que surge mais precocemente ao aproximar-se de uma competição e permanecer em alto nível, é determinada pela sensação emocional de apreensão e tenacidade psíquica. Este tipo de ansiedade, quando aumentada, produziria efeitos negativos nas atividades esportivas que requerem maior concentração, estratégia e agilidade psicomotora fina, como por exemplo, no xadrez, sinuca, golf, tiro ao alvo, dança, etc.

De um modo geral ambos tipos de ansiedade podem estar presentes em um mesmo atleta, predominando um tipop ou outro, dependendo do tipo de esporte e/ou do tipo de pessoalidade.

Por fim existe um terceiro fator se associa à possibilidade da ansiedade somática e cognitiva no comprometimento do rendimento do atleta: o estado afetivo e sua conseqüência mais direta e imediata que é a autoconfiança. A autoconfiança positiva parece estar ligada à melhora do rendimento, principalmente porque parece ser o oposto da ansiedade cognitiva.

O estado afetivo ou a afetividade (ou Humor, em psicopatologia) compreende o estado de ânimo ou humor, os sentimentos, as emoções e as paixões e reflete sempre a capacidade de experimentar sentimentos e emoções. A Afetividade é quem determina a atitude geral da pessoa diante de qualquer experiência vivencial, promove os impulsos motivadores e inibidores, percebe os fatos de maneira agradável ou sofrível, confere uma disposição indiferente ou entusiasmada e determina sentimentos que oscilam entre dois polos, a depressão e a euforia (veja Afetividade).

A afetividade modela o modo de relação do indivíduo com a vida e será através do estado de ânimo que a pessoa perceberá o mundo e a realidade desta ou daquela maneira. Direta ou indiretamente a afetividade exerce profunda influência sobre o pensamento e sobre toda a conduta do indivíduo.

Há estados afetivos momentâneos e constitucionais, os primeiros determinados por circunstâncias vivenciais e os segundos pela tonalidade afetiva ou humor básico da pessoa. As características intorvertida e extrovertida da pessoalidade podem dar um dos muitos exemplos de disposições afetivas inatas. Quando se estuda a Depressão estamos estudando uma alteração do estado de ânimo ou um estado afetivo depressivo.

A autoestima está seriamente comprometida em estados afetivos depressivos e, conseqüentemente o rendimento esportivo de atletas depressivos está seriamente prejudicado. Há, inclusive, uma forte tendência em associar a ansiedade aos estados depressivos.

De fato, saber com certeza se a Ansiedade pode ser uma das causas de Depressão ou se, ao contrário, pode surgir como conseqüência desta tem sido uma questão aberta à pesquisas e reflexões. Strian e Klicpera (1984) consideram um quadro unitário de Depressão e Ansiedade e Clancy e cols (1978) constatam que o humor depressivo antecede com freqüência ao primeiro ataque de pânico. Lader (1975), ainda na década de 70, já observava que o Transtorno Ansioso aparece muito mais freqüentemente em pessoas com caráter predominantemente depressivo.

2. - Influências sobre o Rendimento do Atleta

  Muitos estudos se interessam pelo desempenho de Coping, ou pela performance do atleta em relação às influências do meio, das condições de treinamento, da autoconfiança ou do sentimento de se sentir preparado, pressionado e/ou cobrado para a competição. A maioria dos estudos procura diferenciar os esportistas com uma prática intensa e de bom nível, daqueles cuja prática é mais esporádica e o nível de preparo menos primoroso, em outras palavras, diferencia os profissionais das outras pessoas.

Os autores reconhecem a grande influência sobre o desempenho do atleta, não apenas dos fatores diretamente relacionados ao esporte e à competição em si, mas dos fatores que estão além destes, ou seja, que dizem respeito às circunstâncias sócio-emocionais que envolvem o atleta e a competição. De modo geral tais fatores podem ser resumidos em mecanismos psicológicos ligados à mecanismos pessoais ou constitucionais (personalidade e vocações inatas), à situação da competição em si (conscientes e ativos) e circunstanciais (do entorno social), vistos abaixo.

 2.1 - Fatores Pessoais e Constitucionais

Nenhum ser humano mostrará Traços que já não existam em outros indivíduos, como uma espécie de patrimônio do ser humano, ou seja, à todos indivíduos de uma mesma espécie são atribuídos os traços característicos dessa espécie. Entretanto, a combinação individual desses Traços em proporções variadas numa determinada pessoa caracterizará sua Personalidade ou sua maneira de ser.

O senso comum de um sistema sócio-cultural costuma elaborar uma relação muito extensa de adjetivos utilizados para a argüição dos indivíduos deste sistema: sincero, honesto, compreensivo, inteligente, cálido, amigável, ambiciosos, pontual, tolerante, irritável, responsável, calmo, artístico, científico, ordeiro, religiosos, falador, excitado, moderado, calado, corajosos, cauteloso, impulsivo, oportunista, radical, pessimista, e por aí afora. Podemos considerar Traço Predominante da pessoa em apreço a característica que melhor à define, como se, entre tantos traços tipicamente e caracteristicamente humanos, este traço específico predominasse sobre os demais.

Pois bem. É exatamente a predominância de alguns traços e a atenuação de outros que acaba por constituir a pessoalidade de cada um. Enfim, é como se o artista conseguisse extrair uma cor única e muito pessoal misturando uma série de cores básicas encontradas em todas as lojas de tintas. Como os traços básicos do ser humano são infinitamente mais numerosos que as cores básicas do exemplo, as combinações entre esses traços serão infinitas, fazendo disso a infinita diversidade de pessoalidades.

A combinação dos Traços resultará uma unidade funcional humana completamente distinta de todas os demais. É difícil pensar nestes Traços de outra forma, senão como uma certa inclinação inata submetida à influência agravante ou atenuante do meio, inclinação esta, responsável pela maneira como a pessoa se apresentará ao mundo ou ao convívio gregário (veja Teoria da Personalidade). Entre os fatores constitucionais, um forte traço de ansiedade na pessoalidade, entendido como uma predisposição de sensibilidade inata para perceber certos estímulos como ameaçadores, é um fator preditivo para estados exagerados de ansiedade, cognitiva e somática, estimulados pela competição.

Quando o traço de ansiedade é suficiente para fazer com que essa emoção seja somatizada, ou seja, se transforme em problemas orgânicos ou físicos (hipertensão, gastrites, diarréia crônica, vômitos, urticária, etc), talvez os esportes individuais ou não-competitivos fossem mais bem indicados. 

Pessoas com baixo limiar de tolerância às frustrações também são muito problemáticas em relação aos esportes competitivos. Esse traço, de baixo limiar de tolerância às frustrações, aparece desde cedo no desenvolvimento da pessoa, caracterizando-as como crianças birrentas, “nervosas”, teatrais, exigentes sobre suas pretenções. Dependendo do grau de intolerâncias às frustrações, pessoalidades com este traço podem contra-indicar esportes competitivos ou tornam-se atletas pouco éticos.

Laurent (1999) considera os fatores constitucionais dirigidos segundo duas orientaçõe: pelo rendimento e/ou pelo controle, ou seja, dirigido pela carga afetiva que a tarefa da competição impõe ou pelo Ego do atleta.

Ele ainda entende as motivações do atleta distinguindo três objetivos:

1 - O atleta pode perseguir seu objetivo e demostrar assim sua capacidade. O fato de buscar um rendimento desejável (ou desejado) não está necessariamente ligado ao aumento da ansiedade cognitiva, mas está sim, ligado ao aumento da motivação.

2 – Pode, por medo, evitar o risco de mostrar sua eventual incompetência. A evitação do risco pode levar ao aumento da ansiedade cognitiva e diminuição da motivação e do rendimento.

3 – Pode, ainda, tentar dominar seu compromisso com a competição ou esporte através do domínio da disciplina e da técnica. O dominio da disciplina diminui a ansiedade cognitiva e aumenta a motivação.

2.1.1 - Personalidade do esportista vencedor

Pode-se afirmar que existe uma relação entre a pessoalidade da pessoa e sua opção ou escolha para a prática deste ou daquele esporte. A grande divisão ou classificação poderia ser feita considerando aquelas pessoas voltadas para os esportes competitivos e as outras, para os não-competitivos. Entre essas atividades esportivas teríamos ainda que classificar pessoas voltadas para esportes competitivos de esforço físico, de resistência, de estratégia, etc. Assim como, entre os não-competitivos, teríamos aqueles voltados ao condicionamento de resistência, de força, de habilidade, de persistência, etc. Enfim, como vemos, no esporte descortina-se todo um universo de atividades que atenderiam igual universo de vocações, inclinações e pessoalidades.

Apesar das dificuldades e da complexidade de pesquisas na relação entre o esporte e a pessoalidade, o que se pretende pesquisar são os traços da pessoalidade do esportista (e não sua patologia). Algumas pesquisas comparam a pessoalidade de atletas vitoriosos com atletas que fracassam. Morgam (1987) diz que os atletas vitoriosos respondem, mais freqüentemente, ao perfil denominado iceberg profile.

Esta característica iceberg profile não se trataria de uma pessoalidade particularmente “fria”, mas de um modelo definido por Morgam e caracterizado por atitudes dirigidas para se conseguir evitar, com sucesso, momentos de neurose, depressão, fatiga, confusão e ira, e de se manter orientado por normas que dizem respeito ao vigor, ao sucesso, à vitória e à outros valores culturalmente preconizados (conduta espartana).

Fala-se em iceberg profile porque todos os traços negativos se encontram ocultos ou submersos, enquanto sobressai um único traço positivo (dirigidos à conduta vitoriosa e exemplar) visivelmente por cima. Os atletas que possuem este perfil costumam estar mais concentrados que os outros em suas metas, adaptam-se às circunstancias adversas com maior facilidade, mantêm excelente nível de autoconfiança, enfrentam eficazmente a tensão e elaboram planos detalhados para a conquista das metas.

Sobre isso, Ommundsem (1999) estudou 136 atletas jovens e constatou que a percepção da própria capacidade esportiva boa diminui a ansiedade durante a competição. Atletas mais autoconfiantes experimentaram menos ansiedade somática que aqueles que duvidavam de suas propias aptidões.

As eventuais conseqüências da pessoa iceberg profile seriam aquelas relacionadas à frustração diante de sua não-vitória, frustrações diante da não-vitória de seus alunos, filhos ou mesmo de seus ídolos. Seriam ainda as frustrações (evidentemente, seguidas de depressão) decorrentes do envelhecimento, já que ninguém consegue se manter indefinidamente com a mesma vitalidade.

Gould (1988) e Hardy (1996) consideram que os esportistas de alto nível (profissionais) têem muitos e complexos objetivos implicados na vitória estabelecidos pelo ego, e suas motivações podem se basear na realização de uma satisfação narcisista. Algumas vezes a busca desses objetivos pode ser considerada como uma estrategia adaptativa para combater uma situação de ansiedade determinada por um ego carente de autoafirmação.

 2.2 - Fatores Ligados à Competição em Si

Para muitos autores, o nível de treinamento, a habilidade (perícia) e o histórico de vitórias anteriores aumentam a sensação de autoconfiança dos atletas e tendem a diminuir sua ansiedade cognitiva e somática que se observa no período pré-competição. Segundo Chapmam (1997), os competidores que ganham mais vezes mostram, de 2 a 1 hora antes da competição (competitive stateanxiety inventory) uma maior autoconfiança que aqueles que perdem mais.

Pantedilis (1997) reconhece que em um jovem tenista de 11 anos parece não haver diferença entre o nível de ansiedade gerado na situação de competição e a ansiedade do treinamentob. Martens (1990), por sua vez, observa que o nível de ansiedade é mais alto nos esportistas jovens, em particular os pré-adolescentes, que em outras idades. Os jovens esportistas com pouca experiência quando entram em competições de alto nível, por estarem conscientes do que está em jogo, manifiestam uma ansiedade competitiva mais alta que os esportistas de mais idade ou com mais experiência. De modo geral, os autores sustentam a hipótese de que, na medida em que as pessoas não se sentem ameaçadas em sua autoestima pela competição, manifiestam menos ansiedade.

Outro diferencial no grau de ansiedade determinado pelo esporte, mais precisamente pela competição, diz repeito ao fato do tipo de esporte ser coletivo ou individual. Kirkby demonstra que a prática de um esporte coletivo ou de um esporte individual influi na ansiedade. Ele submeteu 235 atletas chineses a uma escala de ansiedade (competitive state anxiety inventory-2 de Martens) pouco antes de competições importantes (corrida e partida de basquete).

Os atletas que participam individualmente (independente do sexo) apresentaram pontuações muito mais altas na escala de ansiedade somática e de autoconfiança que aqueles que praticam esportes em equipe (Kirkby, 1999).

Mais um diferencial no grau de influência sobre a ansiedade considera a questão da disciplina e aprendizagem do esporte. Martim (1997) sustenta que a ansiedade pré-competição é maior nos atletas de esportes que dependem de uma disciplina maior. Igual é o raciocínio de Bakker (1992), ao mostrar que em certos esportes, como a patinação artística ou a ginástica olímpica, onde a diciplina e a aprendizagem dos movimentos é fundamental para o êxito, a ansiedade pré-competição é maior em outros esportes (corrida, ciclismo, etc) onde a aprendizagem motora não cumpre um papel tão determinante, depois de adquirido o conhecimento básico. 

2.3 - Fatores Circunstanciais

Entre tais fatores estão, em especial, tudo aquilo que entra em jogo na competição, assim como a presença dos pais e familiares do atleta, a atitude do treinador, o sentimento de se sentir preparado, a espectativa social sobre a vitória, a repercussão social do resultado, o eventual rendimento econômico (ou social) vinculado à vitória, enfim, todos esses elementos formam um conjunto capaz de influenciar afetivamente o atleta e seus resultados.

Debois (2000) confirma esta idéia destacando, principalmente, a diferença de rendimento na prática de esportes realizados no domicílio e fora dele. Segundo esse autor, a presença de determinados espectadores é um forte determinante no estresse das ginastas, os quais podem se preocupar mais a respeito das avaliações de seus pais ou do treinador, que nos resultados em si.

Confirmando esse fato, Bray (2000), estudou 34 jovens esquiadores (com idade média de 13,7 anos), e mostrou que a ansiedade somática não se achava ligada forçosamente à competição em si, mas sim relacionada com o olhar dos pais, dos outros competidores ou dos esquiadores em geral.

Duda acha que a expectativa de vitória projetada no atleta por seu entorno (pais, treinador, mídia, etc), seria um forte fator de aumento dos estados afetivos problemáticos na fase pré-competição. A ansiedade competitiva parece ser reforçada pela pressão social que sente o atleta, exacerbando assim os pensamentos pré-competição ligados ao medo do fracasso, de decepcionar outras pessoas, etc (Duda, 1995).

3. - O Lado Bom da Ansiedade

  Em alguns casos, entretanto, a ansiedade aparece mais como um fator estimulante do que debilitante dos rendimentos esportivos. Takemura (1999) por exemplo, pesquisou em 93 estudantes uma situação experimental de estresse e chegou à conclusão de que só as pessoas com um traço de ansiedade mais acentuado em suas pessoalidade foram capazes de correr mais rápido diante de um estresse maior. Deduziu, assim, que o estresse poderia melhorar o rendimento físico.

De fato, parece não haver uma lei geral sobre o caráter estimulante ou inibidor da ansiedade sobre o esporte. Por causa disso sugerimos observar o gráfico acima apenas como uma tentativa de estabelecer limites, a partir dos quais a ansiedade comprometeria o rendimento do atleta. E tais limites seriam muito pessoais, de acordo com o perfil afetivo e ansioso de cada pessoalidade.

Diante da diversidade de efeitos da ansiedade sobre os diversos atletas é que alguns autores aceitam a idéia de que a quantidade ótima de ansiedade necessária para um bom desempenho depende de cada atleta. Hanin (1989) acha que não há um nível de ativação ideal para todos os atletas, sendo que alguns, por exemplo, podem ter seu melhor nível de rendimento quando têem um nível baixo de ativação (sintam-se mais relaxados), enquanto outros só podem alcançar o êxito quando têem um alto nível de ativação (sintam-se mais excitados).

Em outras palavras, para se compreender o efeito da ansiedade não podemos simplesmente avaliar sua intensidade, nem se seu tipo é cognitiva (afetiva) ou somática, mas sim, avaliar a capacidade de enfrentamento ou Coping (capacidades para afrentar o estresse ou capacidade de adaptação) das pessoas.

Outro trabalho interessante é o de Parfitt, tentando demonstrar que os efeitos positivos ou negativos da ansiedade sobre o esporte dependem do tipo de esporte praticado. A ansiedade somática, por exemplo, que é a ativação orgânica global, com aumento dos níveis de adrenalina, cortisol e outros hormônios, pode influir positivamente no rendimento dos esportes onde entram em jogo exigências anaeróbicas (lutas, corrida, salto em altura, natação, futebol, basquete, etc).

Por outro lado, o estado afetivo influiria no rendimento de esportes competitivos que envolvem estratégia, memória, intelecto, como por exemplo, xadrez, golf, jogo de cartas, sinuca, tiro ao alvo, etc. Nestes casos influiria a autoconfiança, sensação de segurança, autoestima, ou seja, a ansiedade cognitiva e não a somática. Assim sendo, parece que há uma concorância sobre o fato da ansiedade não ter o mesmo efeito em todos esportes e nem em todas as pessoas (Parfitt, 1999).

Hartom (2000) chega aos mesmos resultados mostrando que os esportistas sentem de diferentes maneiras os efeitos da ansiedade acerca de seu caráter estimulante ou inibidor em função do esporte praticado. Ele compara jogadores de rugby, considerado um esporte explosivo-agressivo, com o tiro ao alvo, onde se requer concentração e motricidade fina. Observa que os jogadores de rugby atestam que a ansiedade somática favorece o desempenho, enquanto os atiradores de tiro ao alvo reconhecem o contrário.

4. - O Esporte Influi na Ansiedade e na Depressão?

Uma das perguntas mais freqüentes em relação à prática esportiva é saber se as pessoas que sofrem transtornos depressivos ou ansiosos podem melhorar seu estado através do esporte. Será que os atletas e praticantes de esportes se deprimem menos ou têm menos ansiedade que a população geral?

Em relação à ansiedade, primeiramente, devemos saber que tipo de ansiedade, exatamente, está em questão; seria a ansiedade cognitiva ou somática? Seria um estado de ansiedade momentâneo ou de um traço ansioso de personalidade?

De um modo geral e abrangente, as investigações dos últimos dez anos costumam ter resultados diversos, embora quase todos ressaltam um efeito positivo do esporte na depressão e na ansiedade. Weimberg (1997) transcreve um quadro de Taylor onde se relaciona os esportes vinculados ao bem estar psicológico, sugerindo que, em geral, o esporte diminuiria a ansiedade, a depressão, a tensão, a ira, as fobias, além de melhorar a autoconfiança e a estabilidade emocional. Abele (1993) e Yeung (1996) também acham que o exercício teria um efeito positivo sobre o humor, assim como North (1990) e Isen (1990), que considera a atividade esportiva um forte fator de alívio para a depressão.

Voltando a Weimberg, que faz referências a outros autores que avaliaram a redução da ansiedade, relacionando-a à intensidade e tipo dos exercícios, o tipo de exercício físico mais intenso (aeróbico, em especial a corrida a pé, a natação e, principalmente a própria dança aeróbica) parece influir positivamente para redução do estado de ansiedade entre 2 e 24 horas depois do exercício.

Este efeito pode se extender até 15 semanas depois dessa prática aeróbica e parece ser maior quando a prática do exercício estimula uma freqüência cardíaca até 70 % da freqüência máxima do esportista em questão, enquanto as sessões de intensidade mais baixa ou moderada não parecem contribuir na redução da ansiedade. Tais resultados indicariam que a atividade física praticada diariamente, não apenas poderia reduzir a ansiedade, assim como poderia prevenir o desenvolvimento da ansiedade crônica.

Reede (1998) faz outro estudo bastante interessante sobre essa questão. Ele compara dois grupos, um composto por pessoas de vida sedentária, que se dedica a uma atividade mais parada, predominantemente de leitura, e outro chamado grupo ativo, com prática constate de exercícios. Os dois grupos são submetidos ao exercício e a uma seção de leitura posterior e em ambos os resultados mostram uma melhoria do estado de humor (afetivo) durante a atividade física, melhora esta que dura algum tempo depois do exercício. O autor chega à conclusão de que existe, de fato, um efeito positivo do exercício físico sobre o humor durante e depois do exercício, tanto em pessoas sedentárias quanto nas ativas.

Entre as hipoteses que tentam explicar a ação dos exercícios sobre a ansiedade e depressão, uma das mais aceita é a hipótese das Endorfinas. Segundo Lobsteim (1991) e Daniels (1992), a teoria da endorfina sugere que a atividade física desencadearia uma secreção de endorfinas capaz de provocar um estado de euforia natural, por isso, aliviando os sintomas da depressão. Essa idéia, entretanto, não tem concenso entre os pesquisadores. Alguns deles, como Dey (1994), por exemplo, preferem acreditar que o exercício físico regularia a neurotransmissão da noradrenalina e da serotonina, igualmente aliviando os sintomas da depressão.

Outra hipótese seria a cognitiva. De natureza eminentemente psicológica, a hipótese cognitiva se fundamenta na melhoria da autoestima mediante a prática do exercício, sustentando que os exercícios em longos prazos ou os exercícios intensivos melhorariam a imagem de si mesmo e, conseqüentemente, a autoestima (Dzewaltowski, 1992).

O bom senso recomenda que sejam pensadas essas hipóteses como partes integrantes de um mesmo sistema, não excludentes, mas integradas. Muito embora não seja possível confirmar ainda e categoricamente alguma relação causal explícita e direta entre a atividade física e a redução da ansiedade e/ou da depressão, vamos adotar algumas considerações que faz o National Institute of Mental Health (órgão estatal norteamericano que avalia a saúdem mental) sobre a atividade física e sua relação com o estresse e depressão. São elas:

- a condição física se encontra positivamente ligada à saúde mental e ao bem estar;

- a atividade física se acha associada à redução das emoções relativas ao estresse, tais como o estado de ansiedade;

- a atividade física está ligada a uma visível redução do nível moderado de depressão e ansiedade;

- a atividade física, em logo prazo pode ser aconpanhada por uma redução dos sintomas neuróticos da ansiedade;

- as depressões dos tipos moderada-grave ou grave e severa podem exigir um tratamento profissional que pode incluir a prescripção de medicamentos, a eletroconvulsoterapia ou a psicoterapia. Para esses casos a atividade física serveria de complemento;

- uma atividade física adeqüada se acompanha da redução de alguns indicadores de estresse, como por exemplo, a tensão neuromuscular, a freqüência cardíaca em reposo e alguns hormônios relacionados ao estresse (corisol, adrenalina...);

- no plano clínico, é opinião atual que a atividade física produz efeitos emotivos benéficos em quaisquer idades e sexos;

- as pessoas com um bom estado físico que necessitam um medicamento psicotrópico podem praticar com total segurança uma atividade física sob vigilância médica.

Ballone GJ - Ansiedade e Esporte, in. PsiqWeb, Internet, disponível em <www.virtualpsy.org/temas/esporte.html>2004  

Referências:

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