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DIABETES E DEPRESSÃO

Sandra Malafaia começa seu artigo dizendo “Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”Referindo-se à impossibilidade de se ter certeza absoluta se a diabetes proporciona o agravamento da depressão ou, dá-se o contrário.

A relação entre as complicações da diabetes e depressão mostram que a diabetes complicada e crônica aumenta em até quatro vezes a prevalência de depressão moderada ou grave. 

A afirmação sobre “o ovo e a galinha” se refere ao fato da depressão ser uma complicação da diabetes e, também, da depressão ser um importante fator de risco para o desencadeamento da diabetes, principalmente no caso da diabetes do tipo 2, sugerindo que o estado depressivo provoca uma alteração hormonal capaz de provocar o diabetes (Clouse e cols, 2003). 

Os mesmos achados foram constatados em relação à ansiedade, que pode ser uma das faces da depressão, intimamente relacionada à diabetes (Anderson e cols, 2002).

 

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A Diabetes

A Diabetes mellito é um distúrbio do metabolismo que afeta primeiramente os açúcares (glicose e outros), mas que também tem repercussões importantes sobre o metabolismo das gorduras (lípides) e das proteínas. Muita gente pensa que diabetes é apenas um probleminha de açúcar alto no sangue. Infelizmente, não é bem assim.

Diabetes é uma doença que, hoje em dia, oferece boas possibilidades de controle, Porém, se não for bem controlada, acaba produzindo lesões graves e potencialmente fatais, como o infarto do miocárdio, derrame cerebral, cegueira, impotência, nefropatia, úlcera nas pernas e até amputações de membros. Por outro lado, felizmente, quando bem controlada, as complicações crônicas podem ser evitadas e o paciente diabético pode ter uma qualidade de vida normal.

A causa dessa grave alteração do metabolismo dos açúcares na diabetes é conseqüência da produção e secreção insuficiente de insulina pelo pâncreas. A insulina é um hormônio que se encarrega de reduzir os níveis de glicose no sangue, é sintetizada no pâncreas por uma estrutura que se chama Ilhota de Langerhans. A causa da falência na produção ou no modo de atuação desse hormônio não é bem conhecida ainda, mas já se sabe que existem implicações genético-hereditários.

A importância dos fatores hereditários foi suspeitada em estudos com gêmeos idênticos e com a árvore genealógica de pacientes com diabetes. Descobriram que a hereditariedade é um fator importante em ambos os tipos de diabetes. No diabetes tipo 1, há cerca de 50% de probabilidade de o segundo gêmeo vir a desenvolver essa condição, se o primeiro gêmeo já a tiver. Um filho de pai diabético tem 5% de probabilidade de desenvolver a doença. No caso da diabetes tipo 2, se um dos gêmeos idênticos aparecer com a doença, é virtualmente certo que ela vai também se manifestar no outro gêmeo.

Depressão e Diabetes

Segundo o Dr. Marcio Versiani (citado por Sandra Malafaia), existem várias explicações para essa freqüente associação entre as duas patologias. Para ele, 20% da população em geral apresentam depressão e os pacientes diabéticos têm ainda maior chance, pois o diabetes mexe com o equilíbrio hormonal podendo causar um estado depressivo. Em situações de estresse, também há um aumento na secreção de alguns hormônios, principalmente o cortisol, que age contra a insulina e ajuda a manifestar o diabetes (veja Suprarrenal e Estresse).

De fato, a depressão no paciente diabético parece ser uma condição prevalente e universal. A etiologia e fisiopatologia dessa comorbidade permanecem ainda desconhecidas, mas provavelmente, trata-se de uma condição bastante complexa. Existem fatores biológicos, genéticos e psicológicos envolvidos nessa questão. Foram identificadas diversas anormalidades neuroendócrinas e de neurotransmissores comuns à depressão e a diabetes, transformando a depressão em um potencial agente interativo com a diabetes em múltiplos níveis (Lustman et al, 2000).

Em termos práticos, é importante saber que as pessoas que tem diabetes e também são deprimidas sofrem muito mais do que as que têm apenas diabetes. Com a depressão a qualidade de vida piora muito, os custos médicos bem mais elevados e há maiores possibilidade de complicações do diabetes, notadamente das doenças cardíacas.

Conforme estudou Clouse (2003), constata-se que os efeitos protetores contra a doença coronariana naturais do sexo feminino, são diminuídos ou praticamente anulados na presença do diabetes. A incidência em dobro da depressão nas pacientes diabéticas explicariam a altíssima prevalência de coronariopatias em mulheres com diabetes.

Há, sem dúvida, uma interação psico1ógica e comportamental entre o diabetes e a depressão, e ambos passam a ser de controle mais difícil, aumentando os riscos das duas doenças. As complicações da diabetes dizem respeito aos problemas cardiovasculares, retinopatia diabética levando a cegueira, neuropatia, e a outras. Um dos inconvenientes de não se tratar a depressão do diabético é o sintoma do desencantamento para com a vida, proporcionando assim uma baixa aderência ao tratamento do diabetes, controle inadequado dos níveis de açúcar no sangue, bebidas em excesso e aumento do risco de complicações da doença.

Incidência de Depressão e Ansiedade na Diabetes

  A literatura existente sugere que transtornos de ansiedade estão associados com o hiperglicemia em pacientes diabéticos, tipo 1 ou 2, em 12 estudos de uma meta-análise realizada por Anderson e col. (2002). Dezoito estudos que envolveram uma população de 2584 diabéticos e 1492 sem diabetes encontraram 14% de ansiedade em não diabéticos contra 40% nos diabéticos (Grigsby, 2002).

Outra meta-análise realizada por de Groot em 2001, verificou que a depressão foi associada significativamente com uma variedade de complicações da diabetes, tais como, a retinopatia diabética, nefropatia, neuropatia, complicações macrovascular e disfunção sexual, portanto, constatando uma associação significativa e consistente de complicações da diabetes e de sintomas depressivos.

No estudo de Anderson (2001) também se constata que a probabilidades de depressão no grupo diabético foi duas vezes maior que aquela do grupo não-diabético. A prevalência de depressão como comorbidade foi significativamente mais elevado nas mulheres diabéticas (28%) do que nos homens diabéticos (18%). Concluíram que a presença de diabetes dobra as probabilidades de depressão. Igual resultado, mostrando que a depressão é associada à  hiperglicemia nos pacientes com diabetes tipo 1 ou tipo 2 foi confirmada por Lustman e cols em 2000.

Segundo ainda Lustman e cols, em outro trabalho (1997), o Transtorno Depressivo estava presente em 15% a 20% dos pacientes com diabetes. Confirmando o curso da doença diabética, mesmo após o tratamento bem sucedido para depressão, e a depressão apresenta recorrência em 80% desses casos.

  Alguns Agravantes da Depressão

Primeiramente, a possibilidade de depressão no paciente diabético não foge às regras da possibilidade de depressão em outras pessoas não diabéticas, ou seja, devemos contar com o elemento constitucional e hereditário.

Em segundo, a própria situação existencial de uma pessoa que sofre uma doença crônica, algo limitante, é um fator facilitador para o estado depressivo. Essa situação existencial do diabético propensa à depressão varia na medida das limitações impostas pela doença e, mais importante, agrava-se na proporção das complicações típicas da diabetes, como por exemplo, o comprometimento visual, renal, circulatório, etc.

Um dos atenuantes, entretanto, também é a maneira como médico aborda o paciente e conduz seu tratamento. Proporcionar condutas alternativas que minimizem as limitações, programas para melhoria da qualidade de vida, controle assíduo, explanações otimistas, terapias de grupo e vigilância continuada no controle da depressão.

Tratamento de Manutenção

Os pacientes diabéticos e depressivos necessitam de tratamento continuado tanto para uma patologia quanto para outra. Lustman (1997) acompanhou por 5 anos 25 pacientes diabéticos, os quais tinham sido submetidos a um tratamento antidepressivo durante 8 semanas e considerados bem, segundo critérios do DSM-III-R, e uma escala da severidade do depressão.

Houve recorrência da depressão em 92% dos pacientes, com uma média de 4,8 episódios depressivos neste período de 5 anos. Nenhum deles havia tomado medicação de manutenção profilática, daí a necessidade de tratamento de manutenção e continuado.

Para referir:
Ballone GJ - Diabetes e Depressão, in. PsiqWeb, Internet, disponível em <http://www.virtualpsy.org/psicossomatica/diabetes.html> 2003

 

Diabetes Tipo 1
No diabetes tipo 1, ou insulino-dependente, as células do pâncreas que normalmente produzem insulina, foram destruídas. Quando pouca ou nenhuma insulina vem do pâncreas, o corpo não consegue absorver a glicose do sangue: as células começam a "passar fome" e o nível de glicose no sangue fica constantemente alto. 

A solução é injetar insulina subcutânea para que possa ser absorvida pelo sangue. Uma vez que o distúrbio se desenvolve, não existe maneira de "reviver" as células produtoras de insulina do pâncreas, portanto, a dieta correta e o tratamento com a insulina ainda são necessários por toda a vida de um diabético. 

Diabetes Tipo 2
No diabetes tipo 2, embora não se saiba o que o causa, sabe-se que, neste caso, o fator hereditário tem uma importância bem maior que no diabetes tipo 1.

Também existe uma relação com a obesidade, embora a obesidade não leve, necessariamente, ao Diabetes.

O diabetes tipo 2 é um distúrbio comum, afetando 5 - 10% da população.

Todos os diabéticos tipo 2 produzem insulina quando diagnosticados e a maioria continuará produzindo insulina pelo resto de suas vidas. O principal motivo que faz com que os níveis de glicose no sangue permaneçam altos está na incapacidade das células musculares e adiposas de usarem toda a insulina secretada pelo pâncreas. 

Assim, muito pouco da glicose presente no sangue é aproveitada por estas células. Esta ação reduzida de insulina é chamada de "resistência insulínica".

Os sintomas da diabetes tipo 2 são menos pronunciados e esta é a razão para considerar este tipo de diabetes mais "brando" que o tipo 1. Pessoas com mais de 40 anos devem fazer regularmente exames para constatar a quantidade de açúcar no sangue, pois o diabetes do tipo 2 é mais perigoso, isso devido aos sintomas que não são tão aparentes.

 

Referências Bibliográficas

1. Anderson RJ, Freedland KE, Clouse RE, Lustman PJ - The prevalence of comorbid depression in adults with diabetes: a meta-analysis - Diabetes Care. 2001 Jun;24(6):1069-78.
2. Anderson RJ, Grigsby AB, Freedland KE, de Groot M, McGill JB, Clouse RE, Lustman PJ - Anxiety and poor glycemic control: a meta-analytic review of the literature, Int J Psychiatry Med. 2002;32(3):235-47.
3. Clouse RE, Lustman PJ, Freedland KE, Griffith LS, McGill JB, Carney RM. - Depression and coronary heart disease in women with diabetes, Psychosom Med. 2003 May-Jun;65(3):376-83.
4. Grigsby AB, Anderson RJ, Freedland KE, Clouse RE, Lustman PJ - Prevalence of anxiety in adults with diabetes: a systematic review, J Psychosom Res. 2002 Dec;53(6):1053-60
5. Groot M, Anderson R, Freedland KE, Clouse RE, Lustman PJ - Association of depression and diabetes complications: a meta-analysis Psychosom Med. 2001 Jul-Aug;63(4):619-30
6. Lustman PJ, Anderson RJ, Freedland KE, de Groot M, Carney RM, Clouse RE - Depression and poor glycemic control: a meta-analytic review of the literature, Diabetes Care. 2000 Jul;23(7):934-42
7. Lustman PJ, Griffith LS, Clouse RE - Depression in Adults with Diabetes, Semin Clin Neuropsychiatry. 1997 Jan;2(1):15-23.
8. Lustman PJ, Griffith LS, Gavard JA, Clouse RE - Depression in adults with diabetes, Diabetes Care. 1992 Nov;15(11):1631-9. Idem, Diabetes Care. 1993 May;16(5):847-8. Idem Diabetes Care. 2000 Sep;23(9):1443-4.
9. Lustman PJ, Griffith LS, Freedland KE, Clouse RE - The course of major depression in diabetes, Gen Hosp Psychiatry. 1997 Mar;19(2):138-43

 

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